O Ano de São José

Quaresma com São José V

No próximo 19 de março a Igreja celebrará a Solenidade de S. José, Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, que nesse Ano a ele dedicado adquire uma conotação toda especial. O diretório para a liturgia e piedade popular (n. 223), afirma que “o fato [desta] Solenidade cair na Quaresma, em que toda a Igreja está voltada para a preparação batismal e a memória da Paixão do Senhor (…) as práticas tradicionais do ‘mês de S. José’ deverão estar em sintonia com o período do ano litúrgico”.

O Santo Patriarca pode ser celebrado no período quaresmal estando as devoções josefinas em acordo com a índole litúrgica desse tempo especial. Chamados a uma proximidade e intimidade maiores para com o Senhor, o Patrono da Igreja apresenta-se a nós como modelo de total adesão à vontade de Deus, e “desta forma, todo o povo cristão não só recorrerá a S. José com maior fervor e invocará confiadamente o seu patrocínio, mas também terá sempre diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de ‘participar’ na economia da salvação” (João Paulo II, Redemptoris custos, 1).

A renovação litúrgica ao aprofundar o significado do período quaresmal, mantendo uma Solenidade como a de S. José neste tempo, leva em consideração que o pai nutrício de Jesus é, para os fiéis, “exemplo notável […], que ultrapassa os estados individuais de vida e se propõe a toda a comunidade cristã, sejam quais forem as condições e deveres de cada um dos fiéis” (João Paulo II, idem).

No Decreto da Penitenzieria Apostolica para as indulgências deste ano, lê-se: “a devoção ao Guardião do Redentor se desenvolveu muito no decorrer da história da Igreja, que ela não só lhe atribui um culto entre os mais altos, depois da Mãe de Deus e sua Esposa, mas também lhe conferiu vários patrocínios”. Ainda no mesmo Decreto: “[ele] é o depositário do mistério de Deus (…) o que chama todos a redescoberta dos valores do silêncio, da prudência e da lealdade no cumprimento dos próprios deveres”Ora, isso é viver o espírito quaresmal: oração, silêncio e obras de misericórdia.

Celebrar a Solenidade de S. José ajuda-nos a voltar os olhos do coração cada vez mais para a única realidade que importa: Jesus Cristo e seu Mistério Pascal, como bem escreveu João Paulo II: “o fato de se considerar novamente a participação do Esposo de Maria no mistério divino permitirá à Igreja, na sua caminhada para o futuro juntamente com toda a humanidade, reencontrar continuamente a própria identidade, no âmbito deste desígnio redentor, que tem o seu fundamento no mistério da Encarnação” (Redemptoris custos, 1).

Ao celebrarmos S. José, celebramos o dom da paternidade confiada por Deus ao “carpinteiro de Nazaré”, a quem Jesus na terra chamou de pai. Celebramos seu patrocínio e cuidado todo especial por todos os fiéis católicos espalhados no mundo inteiro. Papa Francisco em uma homilia dizia que S. José “é ‘guardião’, porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas” (19.03.2013), podemos ajuntar que ele se mostra sensível com a Igreja, da qual é Patrono Universal.

Como mais um gesto concreto quaresmal, na escola de São José, Patrono da Igreja durante esses dias de Quaresma que ainda temos pela frente façamos um tempo de oração silenciosa, rezando pelas necessidades da Igreja neste momento atual de dificuldades e de pandemia. Rezemos pelo Santo Padre e pela sua paternidade e solicitude católica, para que seja garante da unidade da Santa Igreja de Deus.

São José, providenciai!

Boa oração, abençoada meditação!

Roma, 17 de março de 2021 / Quarta-feira, IV Semana da Quaresma

Pe. Rafhael Silva Maciel, Missionário da Misericórdia e Mestre em Sagrada Liturgia


Quaresma com São José IV

O Venerável Papa Pio XII instituiu S. José como Patrono dos trabalhadores. Na ocasião do encontro com membros da Associação Cristã dos Trabalhadores Italianos dizia: “Hoje (…) devemos reconhecer que a bênção do Senhor, por Nós invocada sobre a vossa obra, foi forte e que o Patrono celeste, que então vos demos, S. José, homem fiel e justo, o trabalhador por excelência, vos protegeu prodigiosamente” (29/6/1948).

Assim, S. José era reconhecido como Patrono dos trabalhadores, pois com o suor do seu trabalho sustentou o lar de Nazaré, proveu para sua casa o necessário, passando ele mesmo por todas a condições e agruras que um digno trabalhador passa no enfrentamento das adversidades da condição humana.

O operário de Nazaré soube com destreza repassar a Jesus o seu ofício. As Escrituras reconhecem Jesus como “o filho do carpinteiro” (Mt 13,55). O Papa Leão XIII, na Encíclica Quamquam Pluries (15/8/1889), escreveu: “José foi ao mesmo tempo legítimo e natural custódio, chefe e defensor da divina família. Com trabalhos que exerceu enquanto teve vida (…). Ele, continuamente, supria para eles as necessidades da vida com seu trabalho”.

Papa Francisco, na Carta Patris corde, escreve que S. José exerceu seu trabalho com honestidade “para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho” (n.6).

Vivemos tempos difíceis, em que uma pandemia inesperada atinge o mundo, não apenas com uma crise sanitária que vitimou muitas pessoas queridas, mas emergiu outro grave problema: uma crise econômica, que afeta tantos lares com o fantasma do desemprego e da falta de condições para o sustento digno das famílias.

Junto ao luto por tantas mortes, “neste nosso tempo em que o trabalho parece ter voltado a constituir uma urgente questão social e o desemprego atinge por vezes níveis impressionantes, mesmo em países onde se experimentou durante várias décadas um certo bem-estar, é necessário tomar renovada consciência do significado do trabalho que dignifica e do qual o nosso Santo é patrono e exemplo” (Francisco, Patris corde, 6).

O operário S. José, em tempos de pandemia na saúde e pandemia do desemprego é para nós sinal de que não devemos baixar a cabeça e buscarmos dignificar a vida humana com um trabalho justo e honrado. O Papa emérito Bento XVI disse em um de seus discursos que “o cristianismo está sempre chamado a procurar a justiça. O caminho realizado pelos leigos cristãos (…) guiou-os à autoconsciência de que as obras de caridade não devem substituir o compromisso pela justiça social” (4/3/2006). Por isso, o trabalho para sustentar os lares é compromisso com a justiça social!

Na Carta para o Ano de São José, escreveu Francisco: “a perda de trabalho que afeta tantos irmãos e irmãs e tem aumentado nos últimos meses devido à pandemia de Covid-19, deve ser um apelo a revermos as nossas prioridades. Peçamos a São José Operário que encontremos vias onde possamo-nos comprometer até se dizer: nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!”. As políticas em favor da vida, para além de fechar cidades e comércios para contenção da pandemia, deveriam prover para os cidadãos, também, por exemplo, um satisfatório sistema de transporte público; a redução da carga tributária, que pesam sobre o bolso dos mais pobres; dar incentivos fiscais para que os empreendedores possam pagar seus funcionários, enfim…

Confiamos aos cuidados do amado Patrono dos trabalhadores as necessidades de tantas pessoas que sofrem nesse momento, ao mesmo tempo que confiamos a ele os governantes para que promovam políticas públicas em favor dos trabalhadores.

Como mais um gesto concreto quaresmal, na escola de São José, operário durante essa Quaresma podemos fazer algum TRABALHO VOLUNTÁRIO, doando um pouco do nosso tempo ajudando alguma instituição de caridade; ou despojemo-nos de alguns bens que temos guardados – no vestiário, alimentos, entre outros – e doemos para irmãos que passam necessidade nessa hora tão difícil! Nossa penitência nos leve à santa caridade e nossas ações sejam reflexo da abstinência e jejum, realizados conforme a vontade do Senhor.

São José, operário, providenciai!

Boa oração, abençoada meditação!

Roma, 10 de março de 2021 / Quarta-feira, III Semana da Quaresma

Pe. Rafhael Silva Maciel, Missionário da Misericórdia e Mestre em Sagrada Liturgia


Quaresma com São José III

O Papa João Paulo II, em 15 de agosto de 1989, oferecia à Igreja a belíssima Exortação Apostólica Redemptoris custos, sobre a figura e a missão de São José na vida de Cristo e da Igreja. Dentre os vários aspetos abordados por São João Paulo II, no número 16, apresenta-se a temática do sustento e da educação de Jesus, em Nazaré, sob o olhar de Maria e de José, que “tinha a alta função de ‘criá-lo’; ou seja, de alimentar, vestir e instruir Jesus na Lei e num ofício, em conformidade com os deveres estabelecidos para o pai [de família]”. São José era o PAI PROVIDENTE.

No decorrer da história da Igreja, porque foi lhe confiado ser o custódio, o guarda, o provedor do sustento de Jesus e de Maria, São José sempre foi invocado como um pai providente por parte dos fiéis. O Beato Papa Pio IX afirmava que a São José Deus “confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos e maiores”. Os santos, em diferentes épocas dão o testemunho dessa guarda providencial de Deus através do auxílio de São José. Sobre a missão de ser o sustento da vida da família de Nazaré, afirma São Bernardo que “São José foi ‘o servo fiel e prudente’ (Mt 24,45), pois Deus destinou-o a ser o apoio de sua Mãe, o sustento da sua carne e o auxiliar do seu desígnio de salvação”.

Santa Teresa d’Ávila testemunha a esse respeito: “Tomei por advogado e senhor o glorioso São José (…). Não me lembro até hoje de ter-lhe suplicado algo que ele não tenha feito (…)” (Livro da Vida 6,6).  Outro santo que fala explicitamente dos favores do Guardião da Sagrada Família é São José Maria Escrivá, que dizia: “O que faz José, com Maria e com Jesus, para obedecer a ordem do Pai, a inspiração do Espírito Santo? Dar-se todo por inteiro, coloca-se ao seu serviço a sua vida de trabalhador”.

São João Paulo II, ainda sobre São José afirmava que “a aparente tensão entre a vida ativa e a vida contemplativa tem em José uma superação ideal, possível para quem possui a perfeição da caridade. Atendo-nos à conhecida distinção entre o amor da verdade (caritas veritatis) e as exigências do amor (necessitat caritatis), podemos dizer que José fez a experiência quer do amor da verdade, ou seja, do puro amor de contemplação da Verdade divina que irradiava da humanidade de Cristo, quer das exigências do amor, ou seja, do amor igualmente puro do serviço, requerido pela proteção e pelo desenvolvimento dessa mesma humanidade” (RC 27).

Nesta Quaresma, que vivemos ainda em tempo de pandemia, experienciamos dramas imensos seja pela perda de pessoas que amamos seja por todas as dificuldades econômicas que vieram à tona com a atual situação. São José, nesse momento desafiante da história, apresenta-se a nós como sinal da providência divina. Papa Francisco na sua Carta Patris corde n. 5, escreve que São José é “o pai com coragem criativa”, apontando o Santo Patriarca como uma intervenção divina, pois através dele “o Céu intervém, confiando na coragem criativa deste homem (…)”.

Nós somos chamados a olhar para São José como um pai providente, que nos ajuda pela intercessão e exemplo a vivermos a criatividade da caridade e aprendermos a “transformar um problema numa oportunidade, antepondo sempre a sua confiança na Providência”. Neste tempo de conversão quaresmal, “se, em determinadas situações, parece que Deus não nos ajuda, isso não significa que nos tenha abandonado, mas que confia em nós com aquilo que podemos projetar, inventar, encontrar” (Patris corde, n.5).

Desse modo, como São José foi guarda e custódio, providente e sinal da caridade divina para com Jesus e Maria, essa Quaresma nos convida a sermos sinal da Providência divina para os mais necessitados. Em tempos de pandemia, de crise econômica provocada por políticas restritivas, o Senhor nos pede amor fraterno, caridade operativa e criativa para com os sofredores desse mundo, aqueles que sofrem materialmente as consequências nefastas da atual crise sanitária e, ao mesmo tempo, sofrem na alma e no espírito – as periferias existenciais!

Como mais um gesto concreto quaresmal, aprendendo da caridade criativa, na escola de São José, durante essa Quaresma façamos algum gesto de caridade para com algum necessitado, com alguma doação material – alimentos ou outro gênero de ajuda material – para alguma instituição de caridade ou mesmo para alguma(s) família(a) que passam necessidade nessa hora tão difícil! Desse modo, nossa penitência nos leve à santa caridade e nossas ações sejam reflexo da oração, realizada conforme a vontade do Senhor.

São José, providenciai!

Boa oração, abençoada meditação!

Roma, 03 de março de 2021 / Quarta-feira, II Semana da Quaresma

Pe. Rafhael Silva Maciel, Missionário da Misericórdia e Mestre em Sagrada Liturgia


Quaresma com São José II

Como tempo especial de conversão e discernimento da nossa vida cristã, a Quaresma nos lembra a cada dia, seja na liturgia e seja nos exercícios espirituais que nos são propostos, a contemplação do mistério da Cruz de Jesus Cristo.

O Diretório para liturgia e a piedade popular, afirma que os fiéis, “contemplando o Salvador crucificado, entendem mais facilmente o significado da imensa dor injusta que Jesus, o Santo e Inocente, padeceu pela salvação do homem, e compreendem, desse modo, o valor do seu amor solidário e a eficácia do seu sacrifício redentor” (n. 127).

A Cruz de Jesus Cristo é o ato mais alto de sua obediência ao Pai do Céu, pois “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo” (Jo13,1). Foi pelo seu amor incondicional à vontade do Pai que Jesus “abaixou-se, tornando-se obediente até a morte, à morte sobre uma cruz” (Fl 2,8). Toda a vida de Jesus foi obediência, todas as suas ações e palavras foram em consonância e união íntima entre a sua vontade e a vontade do Seu Pai.

O Senhor, ainda na sua glória junto do Pai, como Verbo divino já obedecera, encarnando-se no seio da Virgem Maria. De Maria mesmo Ele aprendeu a obedecer, tendo escutado a resposta da escolhida: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra”, o Verbo entra no mundo, por obra do Espírito Santo.

Não é somente da Virgem Mãe que Jesus recebe o testemunho da obediência e da acolhida radical da vontade divina na vida. O homem ao qual está prometida Maria em casamento, José, também é testemunho de obediência e de acolhida irrestrita da vontade de Deus. Ao final do sonho em que o Anjo Gabriel lhe revela o projeto divino, diz o evangelista Marcos que “José, ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher” (Mt 1,24).

Ainda outras duas vezes José agirá em plena conformidade com a ordem de Deus, quando avisado em sonho pelo Anjo do perigo que rondava à Sagrada Família “levantou-se, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito” (Mt 2,14), e quando recebe a revelação de que pode retornar para casa e sair do Egito, José “levantou-se, tomou o menino e sua mãe e entrou na terra de Israel” (Mt 2,21).

Papa Francisco na sua carta Patris corde escreve que São José, em nenhum momento “hesitou em obedecer”, que “com confiança e paciência, esperou” (n. 3), por isso São José é o “pai na obediência”, é o homem, esposo e pai de família que sabe que obedecer a Deus é princípio vital para a sobrevivência da vida, em sentido integral.

O que é a vontade de Deus? A serva de Deus Chiara Lubich uma vez respondeu, quando questionada, que a vontade “é aquilo que mais nos custa”. Levada em consideração essa resposta, São José é ícone dessa suave e doce submissão à vontade divina porque sabe, desde o seu interior, que quando Deus chama, quando Deus pede algo da pessoa, Ele não quebra a sua vida, mas a deixa ainda mais aberta e livre! Fazer a vontade de Deus não é uma condenação, outrossim é uma experiência de enamoramento com a Graça de Deus.

No nosso caminho quaresmal com São José encontramos o “justo” – aquele que, temente a Deus, realiza na sua vida o que Deus lhe chama a fazer, a vocação para a qual foi chamado. Pessoalmente, São José deu o testemunho da sua obediência ao Filho de Deus, que estava sob seus cuidados e, ao mesmo tempo, “na sua função de chefe de família, ensinou Jesus a ser submisso aos pais (Lc 2,51)” e, na escola de José, Ele [Jesus] aprendeu a fazer a vontade do Pai” (Francisco, Patris corde, n.3)

Vivemos tempos difíceis seja no entendimento da palavra obediência, numa sociedade que prega uma liberdade sem limites e uma consciência moral frouxa, seja o reconhecimento de que a vontade de Deus, que tem como fundamento a salvação do ser humano e o seu bem.

São José emerge como um exemplo de obediência e de liberdade sem iguais, porque deixou-se iluminar pela luz divina e, “quando os homens estão na luz, não são eles que iluminam, mas são iluminados e tornam-se resplandecentes por ela (Sto. Irineu).

Como mais um gesto concreto quaresmal, aprendendo a obediência, na escola de São José, durante essa Quaresma demos mais espaço para a escuta de Palavra de Deus e vivamos a penitência que já foi escolhida (se ainda foi seria bom escolher) buscando realizar através dela a vontade de Deus – “aquilo que mais nos custa”!

Desse modo, nossa penitência, por mais simples que seja, leve-nos à santa obediência e que nossas ações, acompanhadas pela oração, sejam feitas conforme a vontade do Senhor. São José, providenciai! Boa oração, abençoada meditação!

Roma, 24 de fevereiro de 2021 / Quarta-feira, I Semana da Quaresma

Pe. Rafhael Silva Maciel, Missionário da Misericórdia e Mestre em Sagrada Liturgia


Quaresma com São José I

A Quaresma é aquele tempo especial na liturgia da Igreja que precede e prepara-nos para a celebração anual da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso mesmo, é tempo oportuno e especial para a escuta da Palavra de Deus e para atender ao seu chamado à conversão através da oração, do jejum e da esmola (cf. Mt. 6, 1-6. 16-18). Neste tempo em que o Santo Padre Francisco convocou toda a Igreja para viver um ano dedicado à meditação sobre São José faremos nosso caminho quaresmal acompanhados pelo esposo da Bem Aventurada Virgem Maria.

Na Mensagem para a Quaresma 2021, o Papa escreve que “neste tempo de conversão, renovamos a nossa fé, obtemos a ‘água viva’ da esperança e recebemos com o coração aberto o amor de Deus que nos transforma em irmãos e irmãs em Cristo (…). O itinerário da Quaresma, como aliás todo o caminho cristão, já está inteiramente sob a luz da Ressurreição que anima os sentimentos, atitudes e opções de quem deseja seguir a Cristo”. Tendo diante dos olhos a São José buscaremos fazer com que a fé, a esperança e a caridade deem frutos verdadeiros em nós.

Na Palavra de Deus não há muitas informações sobre São José; nós encontramos nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas as poucas informações a respeito dele, principalmente, ligando o Santo Patriarca aos eventos da infância e adolescência de Jesus Cristo.

Ele era um homem do seu tempo, da linhagem do rei de Davi, trabalhador, noivo e esposo de Maria, pai nutrício de Jesus Cristo, chamado de “homem justo” (Mt. 1,19). Uma vez que somos chamados à conversão, “apesar da secularização da sociedade contemporânea, o povo cristão chama à atenção, claramente, que durante a Quaresma é necessário dirigir as almas para as realidades que realmente importam; isso sim exige empenho evangélico e coerência de vida, traduzida em boas obras, em formas de renúncia ao que é supérfluo e lascivo, em manifestações de solidariedade com os sofredores e necessitados” (Diretório para Liturgia e piedade popular, 125).

São José é o homem discreto, muitas vezes despercebido, que não faz as coisas para o espetáculo, para ser visto pelos homens (Mt. 6,1). Essa presença discreta e quase despercebida não é fuga de responsabilidades, não é omissão, pelo contrário, é ocasião para viver a justiça verdadeira, que é fazer a vontade de Deus em toda a sua inteireza.

São José é conhecido como “justo”, não o é como os justos aos olhos do mundo, mas como quem tudo realiza conforme a vontade de Deus, como bem define o Catecismo da Igreja Católica: “A justiça é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo aquilo que lhe é devido” (n. 1807).

O justo sabe-se dependente de Deus, sabe que somente o cumprimento da vontade de Deus realizará de modo pleno e saciará a sua vida. Deste modo, São José, como justo que era, vivia as leis da religião do seu tempo para agradar a Deus, somente. E o jejum praticado de modo justo é agradável a Deus, ajuda-nos a entender que nós não nos bastamos a nós mesmos! E que outra criatura humana, depois de Maria, pode nos dar exemplo de total submissão à vontade de Deus, que não o amado São José?

No Guardião da Família de Nazaré “todos podem encontrar (…) um intercessor, um amparo e um guia nos momentos de dificuldade” (Francisco, Patris corde, introdução). São José é um intercessor! Em outras palavras, é homem de oração, de profunda intimidade com o seu Deus e Senhor. No caminho quaresmal somos chamados a sermos cada vez mais pessoas de oração – de corpo, alma e espírito voltados para o Céu. Porque era um homem de oração São José soube em tudo reconhecer e cumprir a vontade do Pai que está no Céu (Mt. 6,1).

Homem de bem, trabalhador operoso, São José é um amparo para os que dele e nele esperavam, especialmente sua esposa e o filho que Deus lhe confiou para cuidar. Neste tempo de conversão somos chamados a cuidar ainda mais um dos outros, pela caridade operativa para com os mais necessitados, pela prática da esmola, que mais do que, simplesmente, dar uma esmola é ter o coração em Deus na esmola dada e no serviço realizado em favor de alguém. Por isso, no caminho quaresmal que iniciamos com a Quarta-feira de Cinzas, recordando nossa vida efêmera e passageira sobre a terra, façamos o firme propósito, olhando para São José, de nos convertermos ainda mais para o Senhor, pelos exercícios espirituais do jejum, da oração e da esmola que “tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6, 1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão” (Francisco, Mensagem para Quaresma 2021). Sejamos presença discreta e atuante, pelo amor a Deus, na vida de tantas pessoas necessitadas.

Como primeiro gesto concreto quaresmal sejamos intercessores e custódios como São José. Durante essa Quaresma escolhamos alguém ou alguma instituição por quem nos comprometamos em rezar e a fazer sacrifícios! Sim, rezar – porque a primeira ação nossa por alguém deve ser sempre a oração. As ações que possamos vir a realizar deverão ser ações rezadas, para que sejam feitas conforme a vontade do Senhor. São José, providenciai! Boa oração, abençoada meditação!

Roma, 17 de fevereiro de 2021 / Quarta-feira de Cinzas

Pe. Rafhael Silva Maciel, Missionário da Misericórdia Mestre em Sagrada Liturgia


O Ano de São José: um presente para toda a Igreja

A convocação do “Ano de São José” nasce do coração paternal de Francisco, que deseja chegar ao coração de todos os católicos, convidando cada um a conhecer melhor o pai adotivo do Senhor e a sua importância no plano salvífico de Deus.

Bruno Franguelli, sj

Na comemoração dos 150 anos da proclamação de São José como guardião universal da Igreja, pelo Papa Pio IX, o Papa Francisco acaba de dar um grande presente à Igreja, o “Ano de São José” através da Carta Apostólica Patris Corde “Coração de Pai”. Esta Carta, como o próprio título sugere, é cheia de afeto. Nasce do coração paternal de Francisco, que deseja, por meio dela, chegar ao coração de todos os católicos, convidando cada um a conhecer melhor o pai adotivo do Senhor e a sua importância no plano salvífico de Deus.

A Tradição Cristã sempre teve uma especial atenção à importância do sim de Maria, mas nem sempre reconheceu com a mesma consciência a importância do sim de José, o carpinteiro de Nazaré, a quem Maria estava prometida em casamento. Foi crucial a aceitação de José para que o plano da Salvação de Deus pudesse ser realizado. A Sagrada Escritura não esconde as dificuldades pessoais que São José precisou enfrentar ao receber o anúncio de que sua futura esposa, sem ter contato com homem algum, estava grávida.

O Evangelho dá a José o título de justo (Mt 1,19), termo raríssimo e concedido a pouquíssimos personagens na Sagrada Escritura. Justamente porque equivale a palavra santo que, no Antigo Testamento, é um atributo reservado somente a Deus (Ecle 7,20). Isso revela muito sobre a integridade, os valores e a santidade de vida de José. Era um homem fiel a Lei, observador dos mandamentos e preceitos da Torah. Por isso, com sua obediência a Deus, escuta a voz do anjo e não teme em aceitar Maria como esposa e assumir o Filho de Deus como seu próprio filho.

A vida de São José e de Maria não será nada fácil. Terão de enfrentar as dificuldades das mais diversas. Eram pobres. O termo que conceitua a profissão de José em grego é tekton que não significa simplesmente carpinteiro, mas aquele que constrói, uma espécie de artesão. José, na verdade era um artista. Ganhava pouco e, como muitos pais de família, viveu a angústia de não poder dar conforto e segurança aos seus. Esta tristeza José sentiu na pele, principalmente quando viu sua esposa dando à luz em lugar paupérrimo, no frio e na miséria. Sabemos que as dificuldades de José não terminaram na gruta de Belém. Imediatamente após o nascimento de Jesus, obedeceu ao anjo e conduziu sua família ao Egito para proteger o recém-nascido das ambições perversas de Herodes. Assim, tornaram-se migrantes. Podemos imaginar o pobre José, buscando um emprego, tentando oferecer o mínimo para sua família nas terras estrangeiras do Egito.

 O Papa Francisco, lembra em sua Carta Patris Corde de tantos pais que, infelizmente, não conseguem oferecer nem mesmo o básico aos seus filhos. José retorna a Nazaré e lá, ensina o menino Jesus a trabalhar, a entender a dura realidade da vida, será um pai presente. A carta do Papa também traz uma belíssima constatação. O fato de Jesus ser tão respeitoso com as mulheres, homem de oração e próximo aos mais sofredores, pode nos revelar tanto da figura do pai que teve, com quem aprendeu tudo isso. Às vezes imaginamos Jesus como se já tivesse nascido pronto. Mas, na verdade, a própria Escritura revela que Jesus teve de aprender gradualmente. O episódio do encontro de Jesus aos doze anos no Templo de Jerusalém nos revela que ele retornou a Nazaré e era obediente ao Pai e a Mãe. E ainda nos revela que ele crescia em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens (cf. Lc 2,52). Assim, José, a partir de sua própria obediência a Deus, e na escuta atenta de Deus, cria o filho. Obediência que se dá na acolhida, no acompanhamento.

José é um pai presente. O papa recorda da carência que temos de esposos e pais como José. Ele não compreendeu tudo. Ele acolheu tudo. José não se impôs na vida do filho, mas ele acompanhou a Jesus na escolha de seu próprio caminho. E assim, a figura de São José se oculta e não temos mais informações sobre ele na Bíblia. Mas o pouco que temos já nos é suficiente para reconhecer a sua importância impar na vida de Jesus e no plano da Salvação. O Papa Pio IX, então, ao declarar São José patrono universal da Igreja, estava dizendo que assim como o guardião da família de Nazaré foi capaz de proteger o Filho de Deus, também segue protegendo a Igreja que é extensão do Corpo Místico de Cristo.

A missão de José no escondimento e na missão oculta tem tanto a dizer aos homens de hoje. O Papa Francisco recorda de tantos homens e mulheres que, de maneira especial, durante a pandemia, arriscam suas vidas para cuidar e proteger as pessoas vítimas desta enfermidade. A Carta Apostólica Patris Corde e o Ano de São José são um convite a cada um de nós para conhecer e imitar aquele homem justo e santo, que mesmo sem compreender tudo, acolheu tudo.


CARTA APOSTÓLICA ‘CORAÇÃO DE PAI’

DECRETO – Penitenciaria Apostólica Prot. n. 866/20/I