A HISTÓRIA DO PRESÉPIO

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PARTE 4

Nos fins do séc. XVI estavam já bastante difundidos presépios com grandes imagens de madeira ou terracota, especialmente nos mosteiros e nos oratórios. Em meados desse século surgiram os protótipos dos manequins articulados inventados na Alemanha e que foram depois aperfeiçoados nas primeiras duas décadas do séc. XVII. Passaram a ter corpo de madeira, cabeleiras postiças de cabelo autêntico, roupas feitas por medida e olhos de vidro. Foram fabricados em tamanhos cada vez menores, atingindo, finalmente, uma medida de setenta centímetros. Cerca de quarenta anos mais tarde surgiram manequins com cabeça e membros de madeira, mas com uma estrutura de arame a sustentar o corpo de pano; estes eram mais flexíveis e “humanos”, mais teatrais. As imagens de madeira da Natividade, expostas quase exclusivamente nas igrejas, estão imbuídas de uma maior espiritualidade e, mesmo isoladas, podem ser bastante expressivas. Por outro lado, a partir do séc. XVII, as figuras mais pequenas passam a ser elementos de uma cena colectiva: eram figuras, já não imagens, dirigidas até ao gosto profano, muito mais próximas dos hábitos do povo que irrompe na cena do presépio emprestando roupas, caras, gestos e atitudes às personagens de madeira ou de terracota que adoram o Menino Jesus nessa Belém em miniatura.

A partir do séc. XVIII os presépios passaram das igrejas para as casas particulares. As suas dimensões aumentaram e prevaleceu a utilização da terracota. Membros da nobreza e da realeza competiam pela obtenção dos mais belos presépios. O séc. XVIII foi, assim, o século de ouro dos presépios. As imagens de gosto barroco invadiram a Espanha, Portugal e toda a Europa católica. As censuras do imperador José II e das autoridades eclesiásticas, bem como o ostracismo dos revolucionários políticos, reduziram mas não comprometeram o amor pelo presépio, que voltou a florescer no período do Romantismo. Essas pequenas imagens, ainda ali se encontram, firmes no cenário de Belém, como se representassem a imobilidade que invadiu todo o mundo – tal como é narrado no Protoevangelho de Tiago – no mesmo instante em que Cristo nasceu. Tais imagens passam de geração em geração dentro das famílias, que todos os anos enriquecem o pequeno património com alguma aquisição. Quando chega a época natalícia e os nossos filhos já não vão a correr buscar às gavetas as caixas que guardam as figuras desde a última Epifania, sabemos que a sua infância chegou ao fim.

O presépio é o Evangelho traduzido em todas as línguas do mundo, com a adição – no próprio cenário, grande ou pequeno, de cortiça e musgo ou qualquer outro material – de personagens que outrora representavam e ainda representam os hábitos e os costumes locais. O presépio é um pequeno mundo, para modificar e enriquecer ano após ano; combina a riqueza e a pobreza, a devoção e o folclore, a tradição familiar e o ritual. É uma metáfora da viagem – do Verbo e da alma – que é partilhada por toda a cultura ocidental: Shakespeare põe Hamlet a dizer: “O Natal é tempo santo e pleno de graça”.


PARTE 3

O dia 24 de Dezembro de 1223 é uma data fundamental. Dezasseis anos depois de Inocêncio III ter proibido a realização de dramas litúrgicos nas igrejas, Francisco de Assis partiu para Greccio com o seu companheiro inseparável, o frei Leão, para conquistar o povo dessa terra inóspita, e ali permaneceu por amor evangélico. Enquanto ali se encontrava, pediu a Honório III uma dispensa da proibição. Descobrira uma gruta nos bosques montanhosos, a poucos metros da sua cabana espartana, que lhe pareceu o sítio ideal para fazer reviver a Belém do Redentor. Foi nisto ajudado por Giovanni Vellita, o magnânimo senhor da região, que lhe forneceu a manjedoura, o feno e os animais. Na noite de Natal o som das campainhas convocou todos os habitantes de Greccio à gruta. Vieram a pé, montados em burros ou cavalos, tão ignorantes do que iriam ver como os primitivos pastores. Na gruta, entre os animais, o cardeal Ugolino, Conde de Segni, celebrou missa perante a multidão silenciosa que ali se reunira. Francisco falou então aos fiéis, e os seus olhos vermelhos e doentes choraram com os sofrimentos do Redentor. Como que por milagre, durante um instante, ele viu Jesus Menino tomar forma nos seus braços; outros também o viram. Dois anos mais tarde Francisco de Assis morreu, e durante esses anos o episódio não se repetiu. Embora possa ser exagerado considerar a noite de Greccio – mística e única – como a primeira noite do Presépio, é certamente legítimo considerá-la como o início do fenómeno extraordinário da difusão do culto da Natividade, um culto expresso através de representações. Os frades franciscanos imitaram o seu fundador nas igrejas e conventos abertos por toda a Europa durante o séc. XIV, contagiando muitos com a paixão de São Francisco pela Noite Santa: foram os verdadeiros pioneiros do Presépio, antes dos dominicanos e dos jesuítas. Desde 1986 São Francisco é considerado o patrono universal do presépio. Nunca uma escolha foi mais unânime.

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PARTE 2

Entretanto, a igreja cristã tinha finalmente fixado a data do nascimento de Cristo em 25 de Dezembro. Numa cronografia compilada por volta dos meados do séc. IV, citou-se um calendário litúrgico de 320 que foi o primeiro a levar a celebração do Natal para o dia canónico actual. O Papa Júlio I decidiu aceitar este facto, bem como a Igreja Oriental, por volta de 380, graças aos bons ofícios de São João Crisóstomo e São Gregório Nazianzeno. A escolha de 25 de Dezembro está em estreita relação com o

Dies natalis solis invicti dos Romanos, a celebração do solstício de inverno, festejado em 25 de Dezembro. As festas associadas ao dia em que o sol deixa de descer em direcção do equador celestial e os dias começam a crescer têm uma origem antiquíssima, remontando talvez mesmo ao período dos adoradores egípcios de Ra, o deus do Sol. Claro que os Pais da Igreja chamaram a Cristo o “Sol da Justiça”, e a liturgia ortodoxa apresenta-o como a “Luz do Mundo”. Entre 432 e 440, o Papa Sixto III transferiu para Roma vários fragmentos do Santo Presépio, in antro praesepis de Santa Maria ad praesepe, a actual Santa Maria Maior, onde teve início o hábito da missa da meia-noite, baseado numa tradição de Belém. Nessa altura, a icnografia da Natividade já tinha sido utilizada em sarcófagos durante, pelo menos, cem anos.

Com efeito, a rota da evolução do presépio foi muito longa. Muitos pormenores surgiram para enriquecer os elementos iconográficos das pinturas e dos relevos baseados nos Evangelhos apócrifos. A presença do marido, o carpinteiro José, tornou-se comum apenas no séc. VI.

A partir do séc. VIII o nascimento de Cristo começa a ser um tema comum nas representações sacras, que dramatizavam a liturgia da igreja em espectáculos para as massas que saíam das igrejas para as ruas, envolvendo muitas vezes toda a população.

A religiosidade dos espectáculos acabou por ir enfraquecendo. Os padres e os frades protestaram energicamente contra esta vulgarização a partir do púlpito, e até um papa, Inocêncio III, fez o mesmo em 1207.

Estas representações constituem um fenómeno importante para a história do presépio, porque estas representações produziram os elementos da representação teatral, plástica, da cena da Natividade que – com as suas figuras estáticas e disposição cenográfica – acabaria por se transformar no presépio clássico.

Foi nestas representações que se iniciou a sobreposição do sagrado e do profano, essa mistura de personagens litúrgicas – a Sagrada Família, os Magos – com tipos vindos do povo, com os seus trajes contemporâneos e os seus gracejos. E o que é isto senão a transposição, em movimento, do presépio verdadeiramente mais autêntico, um presépio que aceita os anacronismos e mistura às personagens do tempo de Cristo, os pastores, os camponeses e os artesãos da época presente?

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PARTE 1

Na labiríntica igreja de Belém, numa pequena sala com as paredes ainda enegrecidas por um incêndio antigo, uma estrela metálica no chão serve para assinalar o local preciso onde nasceu Jesus de Nazaré. Ali, há vinte séculos, Maria deu à luz num estábulo (ou numa gruta, visto que tais cavidades naturais eram utilizadas, na Palestina, como abrigos para os animais) e depois colocou o Menino no calor de uma manjedoura, palavra que em latim se escreve praesepium: de praesepire, fechar com uma sebe. Presépio, portanto.

Segundo a tradição, a manjedoura de Jesus foi destruída no séc. II por ordem de Adriano, tendo talvez os restos sido integrados nas fundações de um templo pagão.

Por volta de 400, São Jerónimo queixou-se disto, lamentando o facto de a santa relíquia primitiva ter sido substituída – talvez por vontade do Imperador Constantino – por uma imitação em ouro e prata. O material primitivo tinha sido o barro, que os habitantes da Palestina utilizavam em recipientes para dar de comer aos animais. O barro é, ainda hoje, o material mais utilizado para modelar as figuras do presépio.

Logo no séc. II surgiram representações da imagem da Virgem com o Menino, nas toscas pinturas feitas pelos cristãos nos seus refúgios. Um exemplo bastante sugestivo pode ser encontrado nas catacumbas de Santa Priscila, em Roma: inclui uma misteriosa terceira figura, que não é nem José nem nenhum rei, talvez um profeta. Os textos sagrados dos Evangelhos apenas narram o nascimento de Cristo, o anúncio aos pastores, a adoração dos Magos. “…e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria.” (Lucas 2,7). Foram os Evangelhos apócrifos que acrescentaram elementos novos, que passaram à tradição. A estrela-cometa de Mateus, que guiou os reis do Oriente no caminho para Belém, tornou-se o Espírito Santo no Evangelho dos Judeus. A gruta surgiu a partir de um Diálogo de Justino (citava uma profecia bíblica: “Habitará uma gruta alta, de pedra dura”) e de uma descrição de São Jerónimo que, em 404, escreveu sobre o specus Salvatoris, a gruta do Salvador.

Na Ascensão de Isaías as lavadeiras são transformadas em parteiras que lavaram a roupa depois de a Virgem ter dado à luz; os seus nomes são Zeleni e Salomé. O boi e o jumento surgiram no Protoevangelho de Tiago, confirmando uma visão de Isaías e de Habacuc; São Paulino de Nola escreveu que simbolizavam a libertação da escravatura. No séc. V, um decreto papal, apoiando-se numa homilia de Leão Magno, fixou definitivamente em três o número dos Magos, que até então tinha variado entre dois e doze. Estes acrescentos e transformações revestem-se de grande importância porque exerceram uma influência enorme no Presépio.

(continua…)