Orientação Pastoral

Fé e responsabilidade em tempo incerto

Aos Sacerdotes e aos Diáconos,

Aos Responsáveis das Associações, Movimentos e Obras

E a todos os Fiéis Leigos da Diocese do Porto

O respeito absoluto pela vida humana é inerente à fé cristã. São muitas as razões para isso: o nosso Deus é o Criador e autor da vida; associou o homem e a mulher à sua defesa e propagação; deu-nos o mandamento taxativo de «não matar»; Jesus promoveu a qualidade de vida, ressuscitou mortos e sintetizou o motivo da sua vinda ao mundo como ação para que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10); etc.

Fiel a esta exemplaridade, a Igreja usa frequentemente o termo “vida” para referir as verdades últimas em que acredita: designa-as como «vida nova», «vida em Cristo», «vida eterna», etc. Sempre se preocupou com a salvaguarda da vida e seu timbre de qualidade. E sempre considerou como crimes mais abomináveis o homicídio, o infanticídio, o aborto, o extermínio, a eutanásia, etc.

Neste tempo de pandemia, continuam válidas as preocupações integrais com a vida humana, sua defesa e qualidade. Embora, obviamente, tenhamos de conciliar este dado com uma prática pastoral que possibilite a evangelização, aproxime o crente do seu Deus, se preocupe com os que passam dificuldades e celebre os sacramentos e as outras ações litúrgicas, neste momento ainda mais urgentes para o equilíbrio religioso e até psicológico.

Se alguma coisa esta pandemia nos ensina é que não podemos fazer programações de longo prazo, pois envolvem-na muitas incógnitas. Entretanto, também nos chegam afirmações científicas que imaginamos sejam portadoras de verdade e alguma segurança. Entre elas está a de que, se não se verificarem especiais mutações do vírus, em Portugal, poderemos atingir a esperada «imunidade de grupo» durante o próximo mês de agosto.

Tendo isto presente e recomendando vivamente que se trabalhe em unidade pastoral, coordenando e especificando nas Vigararias todos os aspetos mais concretos ou âmbitos que digam respeito ao meio local, deixo as seguintes orientações, pensadas e maturadas em Conselho Episcopal e outros órgãos de corresponsabilidade.

  1. Redobre-se o cuidado em todas as nossas celebrações e reuniões de grupos, cumprindo as medidas que já estavam estabelecidas, pois a experiência indica que, quando a situação parece melhorar, temos a tendência de afrouxar a segurança, com consequências nefastas a curto prazo.
  2. Nesta fase, insista-se que quem puder deve participar nas celebrações presenciais (e não meramente virtuais), mas continue-se a privilegiar os meios digitais para todas as reuniões e formações que não exijam uma presença física.
  3. Como já foi difundido por Nota da Conferência Episcopal, celebre-se o tríduo pascal de forma habitual, com a preocupação de não tornar demasiadamente longas cada uma das celebrações. Nos Ramos, será aconselhável proceder à bênção, exclusivamente, no interior da igreja e só daqueles que os fiéis levarem consigo.
  4. De acordo com a mesma Nota, no anúncio da Páscoa, desaconselham-se vivamente manifestações públicas exteriores, no género de «visita pascal». Em contrapartida, seria de recuperar, em todas as Paróquias, a bênção do Santíssimo Sacramento. Poder-se-ia fazer da seguinte forma: no final da Missa, depois da oração pós-Comunhão, antes de despedir o povo, o Pároco, acompanhado pelo Diácono (se o houver) e um acólito com uma lanterna e um turiferário, faria uma pequeníssima «procissão» até à porta ou ao adro da igreja e aí daria a bênção à(s) sua(s) Paróquia(s), sem dizer qualquer palavra. Regressava ao interior do templo e, depois do Tantum ergo, daria a bênção aos fiéis presentes e despedia-os. Nesse momento, os sinos poderiam tocar em júbilo de ressurreição.
  5. Por motivos de segurança e de convívio, a Missa Crismal não será celebrada em quinta-feira santa, mas passará para as 10 horas do dia 11 de setembro. Neste dia, já costumávamos celebrar por alma dos Ministros ordenados da Diocese do Porto. Este ano, temos um motivo acrescido: o número incrivelmente alto –cerca de duas dezenas- de sacerdotes que faleceram desde a última Páscoa. Para além da renovação das promessas sacerdotais e bênção/consagração dos santos óleos, faremos desse dia, portanto, uma solene oração de sufrágio pelos membros da nossa família presbiteral. Peço que, dentro do possível, coordene as atividades pastorais para poder estar livre na manhã desse sábado.
  6. Até lá, deve continuar a usar os santos óleos benzidos/consagrado no ano passado, no dia do Sagrado Coração de Jesus.
  7. Porque não conhecemos as determinações governamentais que, entretanto, nos irão chegar, não se assumam compromissos com incidência comercial ou de outro género a respeito das festas de verão e mesmo das tradicionais procissões do Corpo de Deus e do Mês de Maria.
  8. Sem negar a possibilidade de as realizar individualmente ou em grupos muito reduzidos, quer por motivos de segurança por causa dos convívios que se lhes costumam seguir, quer, especialmente, porque não se compreende uma iniciação cristã sem experiência de comunidade celebrante, é mais sensato deixar a Primeira Comunhão e a Profissão de Fé para setembro/outubro. Não basta conhecer a doutrina, mas é necessária uma vivência sacramental. Explique-se às famílias esta razão e impliquem-se na obrigação de ajudarem os filhos a criarem o hábito da Missa dominical.
  9. O mesmo se poderia dizer das Confirmações, não obstante o perigo de algumas «perdas». Também aqui, manda a prudência que se adiem mais uns (poucos) meses.
  10. Não sabemos como é que a vida religiosa vai «desconfinar» depois da pandemia. Sabemos, porém, que as coisas não regressam ao passado: haverá famílias que vão viver a sua qualidade de «Igreja doméstica» com uma convicção nova e mais fortalecida e outras que, porventura, se desafeiçoarão da prática crente. Temos de ajudar umas e outras e encontrar formas de chegar junto delas. Um dos meios para isso é a difusão da Cruz em casa de todas as famílias, pois só esta lhes lembrará a sua condição cristã. Convido todos os agentes pastorais a porem muito interesse nesta campanha que está a ser promovida na nossa Diocese.
  11. No mais e naquilo que não contradisser estas orientações, sigam-se os princípios dados com as minhas Notas anteriores, mormente a de 28 de agosto de 2020.
  12. Estas orientações podem ser revistas em qualquer ocasião, mormente a meados de abril, altura da reunião plenária da Conferência Episcopal que se debruçará sobre esta temática.

Porto, 17 de março de 2021

+ Manuel, Bispo do Porto