Mensagem de Natal 2021

O silêncio comunicativo do Natal

A cena do presépio, tão cantada pelos poetas e recriada pelos artistas, é fonte de inspiração para os nossos sonhos e vivências. Fala mais que todas as enciclopédias. Não podendo, agora, sublinhar muitas lições, fixo-me, apenas, num tema: o silêncio.

Na cabana de Belém tudo é silêncio: o Evangelho não recolhe uma única palavra dos personagens desse acontecimento. Maria não balbucia qualquer frase, José remete-se à meditação habitual, os Anjos vão cantar para junto dos pastores, os animais ruminam e contemplam. E do Menino não se diz, sequer, que esboçou um gemido.

Não obstante, esse silêncio é altamente comunicativo. A Virgem Maria garante-nos que, para a salvação chegar ao mundo, é necessário situarmo-nos do lado de Deus. José mostra-nos a grandeza da ternura, do acolhimento e da coragem criativa no exercício da função paterna. Os Anjos antecipam o grande tema da pregação de Jesus ao indicar-nos que a pessoa se cumpre celebrando os louvores de Deus e construindo a fraternidade universal. Os animais insinuam a harmonia da casa comum e do respeito pela criação. E o Menino apresenta-se como o Amor despojado, essa atitude de abaixamento ao nosso nível para que, pobres com o Pobre, mais facilmente estabeleçamos diálogo.

Não fora este silêncio e Deus não falaria. Do mesmo modo, há de ser num certo recolhimento operativo e fecundo que criaremos as condições para darmos voz ao vizinho que nos fala do que ele mesmo espera da Igreja neste terceiro milénio e sentirmos o sopro do Espírito que nos move ao discernimento das atitudes a adotar e dos caminhos a percorrer. Silêncio reflexivo da nossa parte para que os outros possam comunicar. Isto é condição de verdadeira sinodalidade.

Neste clima de concentração, recebemos, também, a grande notícia de que Deus não se cansou de nós, não nos ameaça, não nos atira à cara o nosso egoísmo. Mas, a partir do interior do nosso coração, guia a história, interpela a nossa liberdade, potencia o bem, aproxima-nos dos pobres e deserdados, compromete-nos com os descartados e os sós, acalenta a esperança dos que procuram um sentido para a vida, faz-nos cidadãos de um mundo mais unido, torna mais doce o nosso coração para experimentarmos o que é ser família biológica e humana.

Aos cristãos, desejo que estes valores estejam sempre presentes na sua vida. Aos outros homens e mulheres de boa vontade, peço que copiem, no mais alto grau possível, o recolhimento, a harmonia, a ternura e a hospitalidade desta Família de Belém.

E a todos, desejo boas festas. Abençoadas e felizes.

+ Manuel, Bispo do Porto