PLANO DIOCESANO DE PASTORAL 2022-23

Para um novo estilo pastoral

A nível pastoral, a nossa Diocese do Porto está a viver um triénio sob a designação genérica: “Juntos por um caminho novo”. Cada uma destas palavras constitui, por si, um verdadeiro programa: “juntos” exige escuta e partilha capazes de gerar a unidade e fazer de nós uma Diocese coesa na dinâmica evangelizadora; a noção do “caminho”, possibilidade sempre em aberto, remete para um percurso sinodal, lado a lado, com quem é dotado de «boas pernas» para andar, mas também com aqueles que se cansaram ou até desistiram da caminhada e que nos merecem o maior respeito e uma enorme solicitude; enfim, a criatividade implícita no adjetivo “novo” alerta-nos para a certeza de que os caminhos de ontem já não servem para conduzir uma enorme multidão que obriga a novos critérios de percurso, muitas vezes desconhecidos para nós, mas que temos de descobrir, ainda que tateando na noite.

Neste segundo ano, as grandes coordenadas do nosso Plano andarão à volta do tema da escuta e da hospitalidade. Sabemos bem quais os motivos diretos: o Sínodo em curso e o acolhimento hospitaleiro de milhares de jovens que por aqui passarão rumo à Jornada Mundial da Juventude (JMJ), bem como os símbolos da mesma, durante o mês de outubro de 2022. O que nos vai empenhar muito. Motiva-nos o exemplo da Santíssima Virgem Maria que, ao saber da gravidez da sua prima, partiu, saudou, abraçou e fez morada na família de Santa Isabel e Zacarias. Porém, ainda que estas razões não existissem, a escuta e o acolhimento já se imporiam por si, como imagens de marca da Igreja de Jesus Cristo.

Não é aqui o lugar para fazer um longo discurso sobre isto. Mas, de facto, sabemos que o passado próximo eclesial, o que nos restava do regime de cristandade, se caracterizava por uma forte dimensão coletiva: o centro repousava na noção genérica do “povo” e não da pessoa na sua individualidade. A pastoral consistia numa «condução» do povo, mas sem se preocupar muito com as necessidades específicas de cada um. Entretanto, as coisas mudaram: a nossa cultura contemporânea ancorou-se nos direitos humanos, de base fortemente individualista, e as pessoas começaram mesmo a valorizar a sua «diferença» específica, critério de identidade. E a reclamar atenção, escuta, acolhimento, simpatia, disponibilidade.

Este era o modelo de Jesus. Embora fosse especialista na liderança com multidões, o que mais nos chama a atenção é o tempo disponibilizado em favor dos «proscritos», o acolhimento dos «infiéis» e estrangeiros, a palavra individualizada dirigida aos «pecadores», os gestos de cura feitos em benefício de pessoas em situação dramática que Ele Se esforçava por conhecer. A única exceção era para com os autossuficientes fariseus e doutores da lei: porque esses, em nome da religião, desprezavam a pessoa, a única “imagem e semelhança” de Deus à face da Terra.

Nesta linha, formemo-nos para a escuta e para o acolhimento. Vejamos nestas atitudes as condições básicas para um renovado estilo sinodal da nossa pastoral. E da maneira de ser de Deus. Criemos estruturas para lhes dar corpo. Pelo menos nas vilas, cidades e centros populacionais maiores, ou por onde costumam passar mais pessoas, seria maravilhoso se, nas igrejas, estivesse alguém disponível para acolher quem chega, para escutar quem deseja. Poderiam ser leigos devidamente formados, com algum identificativo, em local visível e com condições de privacidade, disponíveis não tanto para falar, mas mais para acolher na simpatia e na amabilidade. Por exemplo, membros do Conselho Paroquial Pastoral – e outros! – de acordo com um específico horário.

Creio que, nas nossas circunstâncias atuais, este poderá ser um verdadeiro ministério confiado a pessoas que a ele se queiram dedicar de maneira permanente e primordial. Pelo menos, os vários «Conselhos» diocesanos poderiam refletir sobre essa possibilidade. Mas, mesmo que não venha a ser «instituído», parece importantíssimo, a exemplo do que encontramos no centro da Europa.

Do mesmo modo, peço aos fiéis leigos que sejam “parceiros fiáveis em percursos de diálogo social, cura, reconciliação, inclusão e participação, reconstrução da democracia, promoção da fraternidade e da amizade social” (Doc. Preparatório do Sínodo, Introdução, n.º 2). Para tal, muito pode contribuir a inserção em movimentos de espiritualidade e grupos de apostolado. O Papa Bento XVI, na peregrinação a Fátima, em maio de 2010, testemunhava-nos: “Confesso a agradável surpresa que tive ao contactar com os movimentos e novas comunidades eclesiais. Observando-os, tive a alegria e a graça de ver como, num momento de fadiga da Igreja, num momento em que se falava de «inverno da Igreja», o Espírito Santo criava uma nova primavera, fazendo despertar nos jovens e adultos a alegria de serem cristãos, de viverem na Igreja”. Porquê? Porque no seu interior respira-se acolhimento, simpatia, familiaridade, capacidade de cada um exprimir os seus próprios sentimentos. Ora, a nossa Diocese do Porto tem constituído a porta de entrada de muitos movimentos e obras em Portugal. Não a fechemos e continuemos, no futuro, a dinâmica que nos vem do passado.

Desejo ardentemente que este novo ano pastoral nos capacite para fundamentarmos a pastoral nas atitudes humanamente gratificantes da escuta mútua e do acolhimento cordial. Em todos os âmbitos e setores: das estruturas territoriais à catequese, de todas as obras aos cristãos na sua individualidade. E que intentemos dar corpo e organização a essa única maneira de ser discípulo do Senhor.

Que o Espírito de Deus, que faz “novas todas as coisas” (Ap 21, 5), renove o nosso coração, a nossa mente e os nossos critérios pastorais. E abençoe a nossa Igreja do Porto que muito deseja corresponder sempre mais ao seu plano salvador.

+ Manuel Linda, Bispo do Porto / + Pio Alves, Bispo Auxiliar do Porto /

+ Armando Esteves, Bispo Auxiliar do Porto / + Vitorino Soares, Bispo Auxiliar do Porto