Acolhimento . Ternura . Alegria . Proximidade . Palavra

(…) Abrir os Evangelhos é como ver, através de uma câmara, Jesus em ação. Santo Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais, convida-nos a contemplar os Evangelhos com os olhos da imaginação, com os olhos, não com a abstração mental. Assim sendo, a história de Jesus entra na nossa. À luz da nossa vida, podemos vê-la, mas vemos também os rostos, os acontecimentos, os personagens… Podemos imaginar que até nós entramos na história de Jesus, vendo sua pessoa, os lugares, seus movimentos e até ouvir as palavras que ele pronuncia. Deste modo, o Evangelho nos toca profundamente.

Os gestos de Jesus são inclusivos: aproxima os mais pobres, os oprimidos, os cegos, tornando-os partícipes da sua nova visão das coisas. Seu olhar não é assistencialista. Ele cura os cegos, não para que apreciem um espetáculo midiático neste mundo, mas para que possam ver a ação de Deus na história. O Senhor não vem libertar os oprimidos, só para que se sintam bem, mas para se que coloquem em ação.

Jesus confia no melhor espírito humano. Encontrá-lo significa recuperar as energias, as força, a coragem. Diante da realidade, o Mestre não se deixa levar por reclamações, não faz um julgamento paralisante. Pelo contrário, convida-nos a um compromisso apaixonado.

A vulnerabilidade das pessoas, pelas quais o Senhor se compadece, não o leva a fazer uma avaliação prudente sobre as nossas limitações, como os Apóstolos lhe sugerem, mas exorta à superabundância transbordante do Evangelho, como aconteceu com a “Multiplicação dos pães”.

Neste sentido, é evidente a capacidade de julgamento diferente de Jesus e de seus discípulos. Não devemos temer se, muitas vezes, vemos Jesus incompreendido até pelos seus, tendo que agir sozinho, mas, questionar a nossa capacidade de julgar e entender o Evangelho.

Enfim, como podemos falar de Jesus? Qual a linguagem que devemos usar? Como apresentar este “personagem”, que mudou a história do mundo? Certamente, não devemos apresentá-lo com uma linguagem costumeira. A linguagem da verdadeira tradição é viva, vital, capaz de um futuro e poesia, porque a linguagem costumeira é obsoleta, enfadonha, cerimoniosa, óbvia. A Igreja deve fazer atenção para não cair na armadilha de uma linguagem banal, de frases repetidas de modo mecânico e cansativo.

O Evangelho deve ser fonte de genialidade e surpresa, capaz de abalar nosso interior. A pior coisa é transformar o poder da linguagem evangélica em algodão-doce: amenizar o impacto das palavras, suavizar certos aspetos das frases, domesticar o sentido do discurso. Quanto são importantes as palavras!

(Papa Francisco)