XII Domingo Comum – A (21/06/2026)
«Todos os meus amigos esperavam que eu desse um passo em falso.»
Estas palavras do profeta Jeremias revelam toda a angústia de quem procura ser fiel a Deus e, precisamente por isso, experimenta a oposição dos homens. Jeremias, inteiramente dedicado aos desígnios do Senhor, sente que muitos vivem à espera de um erro seu, de um deslize, de uma palavra menos acertada, para o acusarem e destruírem a sua credibilidade. Aqueles que deveriam alegrar-se com a sua fidelidade parecem desejar apenas a sua queda. Aplica-se aqui a penetrante observação de Leão Tolstói: «aquele prazer tão humano pela desgraça dos outros». O coração humano, quando se deixa dominar pela inveja ou pela maldade, pode encontrar estranha satisfação na queda daquele que procura viver retamente.
O profeta faz, assim, uma descoberta dolorosa: a fidelidade aos projetos de Deus não é, necessariamente, fonte de tranquilidade ou de uma vida serena. Pelo contrário, é muitas vezes caminho de perseguição, de sofrimento e de provações. Quem anuncia a Palavra de Deus torna-se, não raras vezes, sinal de contradição.
Foi esta a experiência de Jeremias e, de um modo ou de outro, foi também a experiência da maior parte dos profetas. E foi, de forma plena, a experiência do maior de todos os profetas, Jesus Cristo. Os Evangelhos mostram-nos que, por permanecer fiel à vontade do Pai, Jesus foi perseguido, incompreendido, traído e, por fim, condenado à morte na cruz.
Nesta sorte comum dos profetas podemos reconhecer um combate que atravessa toda a história da humanidade: a luta entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, entre o amor e o ódio. O mal não suporta a presença do bem, porque o bem denuncia as suas obras. A mentira não suporta a verdade, porque a verdade desmascara o engano. O ódio não suporta o amor, porque o amor revela a sua pobreza.
Consciente desta realidade, porque a experimentou na própria carne, Jesus exorta os seus discípulos a não viverem dominados pelo medo, mas a permanecerem firmes na verdade e enraizados no amor. A sua palavra é clara e cheia de esperança: «Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto, nem de oculto que não venha a ser conhecido.»
E, na verdade, assim acontece. Por vezes, a verdade tarda em despontar. Muitas vezes, o caminho até ela é marcado pela dor, pela incompreensão e pela injustiça. Mas quem escolhe permanecer fiel à verdade e se afasta do mal nada tem verdadeiramente a recear. A verdade pode ser perseguida, mas nunca vencida. Como afirma o salmo 12, «o justo não teme más notícias».
São Paulo recorda-nos que o único juízo que verdadeiramente importa é o de Deus. É diante d’Ele que a nossa vida encontra a sua verdadeira medida. Só Ele conhece verdadeiramente o nosso coração e as situações, tantas vezes delicadas, por que passamos. Por isso, somos chamados a conservar a liberdade do coração, mesmo quando somos vítimas da mentira, da calúnia ou da incompreensão.
Quem nada tem a esconder caminha com a serenidade dos justos. Pode erguer o olhar para o futuro sem temor, sustentado pela esperança e fortalecido pela certeza de que, mais cedo ou mais tarde, a luz acabará sempre por dissipar as sombras.
Perseguido e ferido pela injustiça, Jeremias não responde com vingança nem com desespero. Ergue antes o coração para Deus e entrega-Lhe a sua causa, suplicando que seja Ele a fazer justiça. E, no Evangelho, é o próprio Jesus quem nos revela que essa oração não caiu no vazio. Deus escuta sempre o clamor dos que permanecem fiéis.
Por isso, Cristo diz aos seus discípulos palavras de uma ternura infinita: «Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.» Não há imagem mais bela da providência divina. Deus conhece-nos pelo nome, acompanha cada passo do nosso caminho e nada do que vivemos passa ao lado do seu coração de Pai. As nossas lágrimas não Lhe são indiferentes; as nossas lutas não escapam ao seu olhar; as nossas feridas são acolhidas no seu infinito amor.
Quem permanece na verdade e coloca a sua vida nas mãos de Deus descobre que nunca caminha sozinho. Mesmo quando atravessa a noite da perseguição, da incompreensão ou da calúnia, sabe que existe uma mão invisível que o sustém, uma presença silenciosa que o ampara e uma luz que o conduz, passo a passo, à salvação.
Por isso, o cristão pode viver na serenidade e na esperança. A última palavra nunca pertence à mentira, nem ao ódio, nem à injustiça. Cristo anuncia-nos a vitória definitiva do bem sobre o mal, da verdade sobre a falsidade, da vida sobre a morte. Para além dos limites da justiça humana, tantas vezes imperfeita e incompleta, existe a justiça de Deus, que tudo purifica, tudo transforma e tudo renova. É essa esperança que sustenta os corações fiéis e lhes dá a coragem de nunca desistir da verdade.
Sustentados pela força da mão divina, caminhemos sempre na verdade e no amor, irradiando à nossa volta o perfume do Amor divino, que tudo renova e recria.
Ámen.
P. Emanuel Brandão
