Neste espaço publicamos semanalmente as homilias do Pe. Emanuel Brandão.
3.º Domingo da Páscoa (19/04/2026)
Da dissensão à comunhão
É impressionante a mudança de estado de espírito dos discípulos de Emaús que nos aparecem no Evangelho de hoje. Antes de Jesus lhes aparecer, estavam tristes, abatidos e desanimados, regressando a casa com um profundo sentimento de perda e derrota. Tinham depositado em Jesus as suas esperanças, mas, com a sua morte, julgavam que tudo tinha terminado.
Mas, após a experiência da presença de Cristo ressuscitado nas suas vidas, os seus corações encheram-se de alegria, entusiasmo e renovada energia para enfrentar todas as dificuldades.
Podemos ver neste duplo comportamento bem refletida a diferença entre uma vida vivida em Deus e uma vida vivida sem Deus. E, quando falo de uma vida sem Deus, não me refiro apenas ao ateísmo explícito, seja ele teórico ou prático. Refiro-me também à chamada indiferença religiosa: não se nega Deus, mas vive-se como se Ele não existisse, sendo as questões transcendentes irrelevantes para a existência.
Pode ainda acontecer que muitos crentes afirmem a existência de um Ser superior sem que tal crença implique uma transformação efetiva da vida. Deus torna-se um mero elemento acessório, reduzido a um vago anseio por algo superior, sem que a transcendência se traduza numa presença que toque a imanência da existência concreta.
Filosoficamente e teologicamente, esta posição, surgida na modernidade, designa-se por deísmo: a crença num Deus entendido como causa primeira, semelhante a um relojoeiro que cria o mundo e dele se afasta para sempre. Neste sentido, o deísmo aproxima-se de um ateísmo prático e não corresponde à conceção do Deus cristão.
Uma vida que não se deixa interpelar pelo mistério do divino permanece, inevitavelmente, análoga ao estado inicial dos discípulos de Emaús: marcada pela tristeza, pela perda de vigor existencial e, frequentemente, por uma sensação de ausência de sentido.
Na contemporaneidade, a questão do sentido da vida — ou da sua carência — afirma-se como problemática central. A perda da abertura à transcendência não é alheia ao vazio espiritual e ao mal-estar interior que atravessam muitos dos nossos contemporâneos. Ao encerrar-se na imanência e ao reduzir a existência às meras realidades do mundo empírico, o ser humano vê-se privado de horizontes de esperança e de possibilidades de otimismo.
Como observa Viktor Frankl, quando o sentido da vida falha, verifica-se uma inflação do ter e da busca pelo prazer, fenómenos que, longe de realizarem a pessoa, acabam por paralisar a sua dimensão mais profunda do ser.
Com efeito, nenhuma realidade deste mundo, nem mesmo a proximidade dos outros, é capaz de saciar a sede de infinito que habita o coração humano. Por isso, o sujeito tende a percorrer sucessivas experiências sem jamais encontrar um lugar ou um tempo que verdadeiramente pacifique a sua interioridade.
Assim, o vazio existencial e a desorientação resultante da ausência de sentido constituem uma relevante fonte de infelicidade, tanto para a pessoa como para aqueles que com ela convivem. Um ser humano infeliz tende, por sua natureza relacional, a repercutir esse estado no ambiente que o rodeia.
Mas, ao contrário do que sustenta o deísmo, o Deus revelado em Jesus Cristo, sendo fundamento do ser e Senhor da história, não se mantém distante nem inerte, mas permanece imanente e operante no mundo. Trata-se de um Deus que se autocomunica na história, que interpela através dos profetas, que assume a condição humana na encarnação do Verbo e que continua presente pelo Espírito, implicando-se na existência concreta de cada pessoa.
Sinal eloquente disso mesmo é a manifestação do Ressuscitado aos discípulos de Emaús. Estes reconhecem que o Jesus que haviam conhecido, e cuja ausência lamentavam, permanece verdadeiramente presente no íntimo do seu ser. Descobrem que Ele se oferece como companheiro de caminho e que deseja assumir a história deles como sua própria história. Mais ainda, experimentam-se envolvidos pela própria vida divina.
Não se trata apenas de um encontro exterior com Deus, mas de uma participação ontológica na vida de Deus, pela força do Seu Espírito. É esta presença interior do divino que os liberta da tristeza, do medo e da paralisia. Quem vive sustentado pela presença de Deus nunca permanece só e encontra sempre razões para a esperança e para a alegria. Um coração que foi visitado pelo divino não teme nada nem ninguém, pois, como nos recorda a Escritura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em nós por meio de seu Filho, Jesus Cristo (cf. Rm 8,39).
Uma vida marcada pela Páscoa, à semelhança dos discípulos de Emaús, torna-se portadora da Boa Nova da Ressurreição, anunciando-a a todos sem medo nem hesitação. A alegria pascal não pode ser contida: é dom destinado a irradiar-se por todo o mundo. Cabe-nos, portanto, a missão de sermos mensageiros desta alegre notícia.
Em cada Eucaristia, Jesus aproxima-se de nós: fala-nos pela sua Palavra e fortalece-nos com o seu Corpo e Sangue. Que este encontro com Jesus Ressuscitado faça arder o nosso coração, enchendo-nos de amor, de verdade e do desejo ardente de O anunciar a todos.
Ámen.
P. Emanuel Brandão
